segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O sonho (ainda?) não acabou.

Oswald Barroso**

Salvador, 03 de Março de 1971.

Deixei minha casa e minha família sem despedidas. Ninguém pode saber para aonde estou indo, seria arriscado demais, para mim, para minha família, meus amigos, para os que ficam. Ainda não sei bem o meu destino, fui convocada e não houve tempo para pensar sobre ir ou ficar, não há tempo para pensar. De qualquer modo, ainda que não sinta medo de partir sozinha, não estarei sozinha. Medo. Há algum tempo não sei mais o significado, o sentido, que sentimento representa a palavra. Para mim, tornou-se apenas uma junção de letras sem sentido. Os poucos objetos que trouxe comigo - dois sapatos, uma calça jeans, dois vestidos, um caderno, livrinho de Marx, fotografias da minha família e de alguns amigos – deixei-os para trás, fui obrigada a enterrá-los num depósito embaixo da terra. Levo saudades dos meus irmãos e irmãs, dos meus pais. Mas “é melhor uma saudade que uma cela de tortura [...] é melhor não ir vê-los e manter a saudade que perder a liberdade e, além disto, ter saudades e dores físicas. Por isso fui embora sem vê-los.”* Deixo a universidade, o curso de Medicina (Geografia, Economia, 3º-ano-do-2º-grau) não concluído. Que importa? “Para onde vou não tem volta [...] volto com a vitória ou não voltarei”*. Nunca tinha tocado num rifle. É pesado, preciso cortar lenha para exercitar meus braços. Sou de uma família tradicional da classe média de Salvador, não cozinhava, não lavava roupas, não pegava no pesado em casa. Tinha toalhas bordadas, um quarto só para mim. Tenho vinte e quatro anos. Precisei aprender a atirar, matar jabutis no mato, beber água do rio e misturada com lama. Rompi com tudo que havia de confortável. “Os sacrifícios serão maiores, mas a causa é justa e a vitória é certa.”*Um dia, ficamos sabendo que o exército havia chegado, estavam cercando a mata. Corri para dentro da mata, tentei escapar, fui caçada como um bicho, até ser encontrada e presa. Sabia que me restava pouco tempo de vida, tinha que fazer dos meus últimos minutos uma revolução. Fui levada por três homens para um ponto de mata espessa. Perguntei: “- Vou morrer agora? Eu quero morrer de frente”Olhei meu executor nos olhos, senti orgulho. Os tiros me empurraram para o chão. Meu corpo jamais foi encontrado. “Tristeza é o que eu não quero agora. Prefiro a alegria de [...] saber que estamos não apenas pensando em nós, mas também no povo, e também a alegria de partir em busca do que eu desejava e tenho certeza que é justo.Espero encontrá-lo um dia com o sorriso largo, participando da luta do povo. Se não nos encontrarmos, espero que encontremos o nosso povo sorrindo junto com a vitória consagrada.”*
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Acorda assustada com o barulho do despertador, abre e fecha os olhos freneticamente a fim de atestar a realidade. Está viva. Foi um pesadelo. Enche o peito de ar, solta o ar aos poucos pela boca, suspira aliviada, sente como se tivesse ressuscitado. Pega o celular que está ao lado da cama, são 5h 47min do dia 03 de agosto de 2009. “São os pesadelos de agosto” – Pensa. E pensa que, naquela noite, também morreu um pouco. Pensa que morre um pouco todos os dias, em nome de nada. Pensa que, todos os dias, finge que faz alguma coisa importante para o país, para o mundo, pelo aquecimento global, para a falta de água, pela bolsinha ecológica, pelas criancinhas desabrigadas, pelos excluídos da sociedade, e-mails encaminhados em protesto aos políticos corruptos, para manter sua cabecinha pseudo-intelectual-burguesa aliviada. Pensa que o sonho acabou.

Se é para morrer por qualquer coisa, morra por algo que valha a pena. Morra por algo que transforme, mude a história do país.” Demerval Pereira
*Trechos de cartas e depoimentos de guerrilheiras(os).
** Poesia de Oswald Barroso à Jana Barroso e Helenira Resente. Poemas do Cárcere e da Liberdade. 1974.
O texto é uma tentativa de fazer uma pequena homenagem a todas mulheres guerrilheiras do Brasil, mortas e desaparecidas durante o regime militar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Pathos

"I'm only happy when it rains"
Garbage
Esse texto foi concebido diante de uma cena de morte. Um velório, dois corpos sendo velados lado a lado, acidente de carro: artigos, teses e dissertações de herança. E foi a partir daí que surgiu na minha cabeça, de forma involuntária e recorrente, a frase: é preciso encontrar um sentido. Da mesma forma que o texto foi gerado, independente da minha vontade, ele continua a se desenvolver no meu ventre – ou melhor – na minha cabeça. Ainda é prematuro, mas, insiste em nascer. Ele só se desenvolve em dias frios, ainda que eu insista em pensá-lo nos dias quentes, de céu azul, ele se nega a crescer dentro de mim. Por outro lado, nos dias frios, principalmente nos chuvosos, ele se alimenta e cresce facilmente. Num desses dias frios, e chuvosos, resolvi sair para procurar uma centelha de resposta, para a agora então pergunta: é preciso encontrar um sentido? Você está caminhando pelo centro da cidade. Qualquer cidade grande que seja, quanto maior, melhor. Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, London, New York, Barcelona, Pequim. Você olha ao redor. São milhares de pessoas anônimas, como você, carregando no peito meio quilo de angústias, como você, buscando algum tipo de felicidade, como você, tantas vidas co-existindo discretamente, como a sua. Tantos olhares - distantes, apaixonados, distraídos, encantados, felizes, desesperados, apáticos, angustiados, doentes, miseráveis, famintos - e mais uns milhões de sentimentos expressados através de gestos nunca notados, atropelados pelo turbilhão que é existir, e, sobreviver, no período da história que uns sociólogos chamam de pós-modernidade, ou, modernidade líquida.
E É preciso encontrar um sentido.
Qual?
Desespero. Você deseja tanto encontrar um sentido que começa a ler desesperadamente, beber desesperadamente, comer desesperadamente, comprar desesperadamente, transar desesperadamente, fumar desesperadamente, trabalhar desesperadamente, sair desesperadamente etc. (E É claro que estamos falando de pessoas como nós, “brasileiros-médio-privilegiados”)
Vazio – ao chegar a sua casa, ao quarto, ao banheiro ou a qualquer lugar em que possa estar sozinho diante de você, sente vontade de chorar, desesperadamente.
Continua recorrente a frase na minha cabeça: é preciso encontrar um sentido. Caminhando num dia frio e chuvoso, junto a milhares de pessoas, minha vida discreta e anônima fazendo parte do cotidiano do centro da cidade, começo a responder o meu questionamento, surgindo assim, em continuidade à primeira, uma segunda frase: um caminho pode ser compreender que não é necessário fazer sentido. Não racionalmente. É preciso pathos, de paixão e patologia.

terça-feira, 7 de julho de 2009

"Pois, se é temerário entrar desarmado no antro do leão, se é temerário navegar pelo Atlântico num barco a remo, temerário ficar num pé só no alto da catedral de São Paulo, é ainda mais temerário ir para casa a sós com um poeta. O poeta é ao mesmo tempo um leão e o Atlântico. Um nos afoga e o outro nos rói. Se sobrevivermos aos dentes, sucumbimos nas ondas. Um homem que pode destruir ilusões é, ao mesmo tempo, fera e dilúvio. As ilusões são para a alma o que a atmosfera é para a terra. Retirai esse brando ar e a planta morre, a cor empalidece. A terra por onde caminhamos é um ardente rescaldo. É marga o que pisamos, e seixos de fogo queimam os nossos pés. Somos desfeitos pela verdade. A vida é um sonho. É o despertar que nos mata. Quem nos rouba os sonhos rouba-nos a vida."

Virgínia Woolf - Orlando

insustentável ausência

Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma como precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Caio F. - Os Dragões não Conhecem o Paraíso



O seu dia começou com o gosto árido da ausência e lágrimas, de quem na noite anterior chorou até fatalmente adormecer. Sono irregular, acorda quando ainda está escuro-madrugada, com palpitações, arritmias, taquicardias e pensamentos recorrentes, reminiscências que, aparentemente, perdurarão para o resto da sua vida. Prefere continuar na cama, ainda que com isso não consiga afastar os pensamentos que lhe angustiam. Deitado, pensa que os prazeres da manhã podem lhe fazer bem: levantar, beber café, tomar um banho, ocupar-se das pendências da última semana, na tentativa de livrar-se um pouco do gosto árido de ausência.
Força-se a sair de casa. De súbito, o sol agride seus olhos viciados em escuridão, que, aos poucos, vão se adaptando à claridade. Compra cigarro no caminho, e Marisa Monte misteriosamente invade seu dia, parecendo uma conspiração misteriosa do universo, que compreende perfeitamente seu momento, numa canção que diz:
“Mais uma vez eu vou te deixar/Mas eu volto logo pra te ver/Vou com saudades no meu coração [...] Mas mesmo na distância o meu pensamento voa longe demais [...]Longe de você meu bem, longe da alegria...”
Continua caminhando, ao chegar ao ponto de ônibus, percebe que mora há dez anos perto da praia. Deseja tirar a roupa, entrar no mar. Lembra-se que tudo anda perigoso demais, que o bairro é perigoso demais, que é possível que levem suas coisas naquela praia. Pensa em voltar um dia. Lembra que não tem nada que possa ser roubado, que tem tempo de sobra. As águas verdes e transparentes da praia o seduzem, talvez uma sereia, Iemanjá, esteja chamando por ele, convite inegável, talvez, isso acabe com o gosto árido de ausência. Num gesto de aparente impulsividade insana, dobra a calça e caminha até o mar. Molha os pés. Volta para a vida com os pés sujos de areia.
E assim sentia-se na ausência dela: quase sem sentir. O gosto árido de ausência, as palavras não-ditas e não-escutadas, os pensamentos não compartilhados, os dias que passavam incompletos, as noites que eram meras transições entre um dia e outro, e, mais uma vez “dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito.”, ainda que fosse comum, jamais conseguiu se acostumar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

"Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa

Por favor...Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água"


Algumas pessoas tem o dom de traduzir todos os sentimentos, uma dessas pessoas é Chico Buarque.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Shakespeare merece...

...uma postagem só para ele.

"Hamlet: [...] que agora em diante meus pensamentos sejam só sangrentos; ou não sejam nada!(Sai)"

"Rei da Dinamarca: Quando as desgraças chegam, elas não vêm solitárias, mas em batalhões"

Sobre a morte de Polônio:

"Hamlet: [Ele] Está na ceia. Mas não está comendo. Está sendo comido. Um determinado congresso de vermes políticos se interessou por ele. Nesses momentos, o verme é o único imperador. Nós engordamos todos os outros seres para que nos engordem; e engordamos para engordar as larvas. O rei obeso e o mendigo esquálito são apenas variações de um menu - dois pratos, mas na mesma mesa; isso é tudo."

Trechos de Hamlet.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

despedida

O desejo jamais foi escravo do delírio,
sempre se reservou certa medida
para distinguir tais diferenças.”
Shakespeare - Hamlet

Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Caetano Veloso

"Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
[...]
Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas."

Álvaro de Campos


Ainda sonolento, entrou no aeroporto. Enquanto procurava um café, observava as pessoas - cansadas, felizes, ausentes, coloridas, despedindo-se, reencontrando-se e.... partindo – e sentia INVEJA. INVEJA MESMO, em maiúsculo, de quem partia. Foi ao aeroporto buscar alguém que há tempos mora em outra cidade. Alguém que ama(ou?). Há tanto tempo não o encontrava que já tinha esquecido partes do seu rosto, e, a ansiedade para o reencontro já não era tanta, havia se acostumado com a sua ausência.
A espera o obrigava a pensar. O movimento de pessoas no aeroporto o fazia lembrar do desejo que tinha de entrar num avião para qualquer lugar, daquele jeito mesmo, sem levar nenhum objeto ou roupa, nada que o lembrasse a sua antiga vida, chegar num país desconhecido, sem saber a língua, sem ter lugar para morar, sem dinheiro, apenas com a vontade de viver anônimo, começar do zero.
A voz misteriosa do aeroporto dizia que o vôo que esperava havia chegado. Entre ansiedade, arritmia, suor e tontura, dirigiu-se ao desembarque. Avistou-o. E ele vinha diferente. Suas roupas, seus passos e seu sorriso. Abraçou-o com força. Já não sentia seu abraço. Sentiu vontade de deixar cair os braços, soltar seu corpo. Ao vê-lo, lembrou dos telefonemas não retornados, dos encontros adiados, dos sonhos abortados, dos pedidos negados, da despedida. Naquele instante, odiou seu sorriso. Num curto espaço de tempo, instante que é, não se sabe exatamente em que segundo, o seu coração endureceu de decepção e dor.
Entraram no carro. Enquanto voltavam para casa, trocavam frases vazias e idiotas - “Como estava o tempo?”, “Como foi a viagem?” – desconhecidos. Deixou-o no hotel e seguiu sozinho para seu apartamento.
Engoliu seco. Ao chegar ao apartamento, sentiu-se estrangeiro. Lembrou do dinheiro na poupança, do carro, do apartamento. Iria se livrar de tudo, iria fugir. Decidiu partir, sair da sua vida. Abriu um vinho, acendeu um incenso, e já sem dor, escreveu uma carta de despedida:


Querido,
Estou partindo. Estou repartido. Quando se está repartido,o melhor a fazer é partir. Recomeçar. Até as minhas frases são curtas. Remendos de palavras. Se tem sensibilidade para perceber, venho partindo há muito tempo. O coração se cansa. A dor, aos poucos, se transforma em indiferença. E esse é o pior momento: sentir a transformação da dor em indiferença. Já se foi o tempo em que a dor alimentava a minha paixão. A maturidade nos ajuda a compreender a nossa solidão, e não apenas compreender, mas adorá-la. Para viver, preciso partir.


Começou a arrumar as malas.